DOSES DE ESPIRITUALIDADE
Il vero spirito di fede porta una persona a staccare lo sguardo da se stessa, per volgerlo verso Dio. (Beato John Henry Newman)
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«Manda-me ir ter contigo sobre as águas»
«Manda-me ir ter contigo sobre as águas»
+ Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (Mt 14, 22-33)
Depois de ter saciado a fome à multidão, Jesus obrigou os discípulos a subir para o barco e a esperá-l’O na outra margem, enquanto Ele despedia a multidão. Logo que a despediu, subiu a um monte, para orar a sós. Ao cair da tarde, estava ali sozinho. O barco ia já no meio do mar, açoitado pelas ondas, pois o vento era contrário. Na quarta vigília da noite, Jesus foi ter com eles, caminhando sobre o mar. Os discípulos, vendo-O a caminhar sobre o mar,
assustaram-se, pensando que fosse um fantasma. E gritaram cheios de medo. Mas logo Jesus lhes dirigiu a palavra, dizendo: «Tende confiança. Sou Eu. Não temais». Respondeu-Lhe Pedro: «Se és Tu, Senhor, manda-me ir ter contigo sobre as águas». «Vem!» – disse Jesus. Então, Pedro desceu do barco e caminhou sobre as águas, para ir ter com Jesus. Mas, sentindo a violência do vento e começando a afundar-se, gritou: «Salva-me, Senhor!». Jesus estendeu-lhe logo a mão e segurou-o. Depois disse-lhe: «Homem de pouca fé, porque duvidaste?». Logo que subiram para o barco, o vento amainou. Então, os que estavam no barco prostraram-se diante de Jesus, e disseram-Lhe: «Tu és verdadeiramente o Filho de Deus».
Palavra da salvação.
Para a reflexão pessoal
No Evangelho deste XIX domingo do Tempo Comum, o evangelista Mateus (14, 22-33) narra a história de Jesus a caminhar sobre as águas, destacando elementos naturais que assumem um significado importante e que nos remetem a alguns episódios do Antigo Testamento.
A cena desenrola-se no Mar de Tiberíades: o mar e as águas, na Bíblia, assumem frequentemente o significado do mal, basta pensar no dilúvio universal no tempo de Noé ou nas águas do Mar Vermelho, que se abriram, por ordem de Moisés, para permitir a passagem do povo de Israel.
Um segundo elemento natural é a montanha: «o Senhor Jesus, que, “despedindo-se da multidão, subiu à montanha, à parte, para orar”. A montanha é o local do encontro entre Deus e o homem: o Sinai, o Carmelo, o Tabor, para citar apenas alguns, estão entre os locais bíblicos mais significativos, onde Deus se revelou ao homem.
Por fim, o vento, que, na Sagrada Escritura, é sinal da presença de Deus. Lemos na primeira leitura que o profeta Elias, «depois do fogo», ouviu o «sussurro de uma brisa suave. Ao ouvi-lo, […] saiu e ficou à entrada da caverna» na presença de Deus (cf. 1 Reis 19, 12-13); tal como no Pentecostes: «De repente, veio do céu um estrondo, como o de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde se encontravam [...] e todos foram cheios do Espírito Santo» (At 2, 2-4)
Neste episódio, no entanto, o vento é forte e contrário, colocando em sérias dificuldades a barca dos discípulos, que, com as suas escassas forças, não conseguem fazer face à tempestade que os está a submergir. Sacudidos pelas ondas, são a imagem de cada um de nós, que muitas vezes nos sentimos submergidos pelas circunstâncias adversas. Tudo, ou quase tudo, parece estar contra nós. Tal como os discípulos, remamos contra o vento contrário, enquanto as forças nos permitem. Depois, exaustos, «abandonamos o barco» e deixamo-nos dominar pela ansiedade e pelo medo: medo do futuro, medo dos outros, medo de nós próprios e da nossa instabilidade.
Quem domina a cena, porém, é o Senhor Jesus, que «ao fim da noite foi ter com eles, caminhando sobre o mar». O Senhor espera pelo «fim da noite» para socorrer os seus discípulos, não porque não se importasse com o sofrimento deles, mas porque sabia o quanto era importante que experimentassem a sua impotência, que tocassem no fundo da sua incapacidade, para se aperceberem de que, sem a Sua ajuda, o barco teria afundado e ninguém se teria salvado.
No entanto os discípulos quando O vêem a caminhar sobre o mar, não O reconhecem e ficam ainda mais assustados, «gritaram de medo». E assim acontece com todos nós: muitas vezes não reconhecemos o Senhor que passa ao nosso lado, que se manifesta, porque o faz de uma forma que não se enquadra nos nossos esquemas mentais, em circunstâncias desfavoráveis ou mesmo adversas. E também nós, tal como eles, começamos a tremer de medo, porque tememos que o Senhor nos tire, nos roube, nos leve pessoas, coisas, situações e certezas nas quais baseamos a nossa estabilidade.
Na realidade, o bom Deus, caminhando sobre as águas, está a dizer-nos que os altos e baixos da vida, as nossas incertezas, as tantas adversidades e imprevistos que podem abater-se repentinamente sobre o nosso barco, não devem ser removidos, mas devem servir de «caminho» para nos dirigirmos para Ele, tal como fez Pedro, que «desceu do barco, começou a caminhar sobre as águas e dirigiu-se para Jesus».
Somos nós que, revestidos do poder de Deus, devemos dominar as águas. Se, porém, nos afastarmos da Sua Graça, iludindo-nos a pensar que contamos apenas connosco, as águas dominar-nos-ão e corremos o risco de afundar.
O orgulho faz-nos afundar. É a humildade de nos reconhecermos incapazes e de pedir ajuda que nos faz ressurgir como criaturas novas: «Jesus estendeu a mão, agarrou-o e disse-lhe: “Homem de pouca fé, por que duvidaste?”»
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