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As Tentações de Jesus (parte segunda)

4ª Catequese FCIM 2023-24

de Pe. Aldo Travaglione icms

As tentações de Jesus: o diabo também nos tenta de maneira semelhante

O diabo insinua a tentação aproveitando-se das necessidades e fraquezas da natureza humana.

O Senhor, depois de passar quarenta dias e quarenta noites jejuando, deve ter ficado muito fraco e sentido tanta fome quanto qualquer homem nas mesmas circunstâncias. É nesse momento que o tentador se aproxima, propondo transformar as pedras no pão de que tanto deseja e necessita.

E Jesus «não só recusa o alimento que o seu corpo exige, mas também afasta de si uma incitação mais grave, a de usar o seu poder divino para resolver, por assim dizer, um problema pessoal [...].

Generosidade do Senhor, que se humilha, que aceita plenamente a condição humana, que não usa o seu poder divino para escapar-se das dificuldades ou do esforço: que nos ensina a ser fortes, a amar o trabalho, a apreciar a nobreza humana e divina de saborear as consequências do dom de si mesmo”[1].

Esta passagem do Evangelho também nos ensina a nos manter atentos, para connosco e para com as pessoas que temos maior obrigação de ajudar, principalmente nos momentos de fraqueza, de cansaço, quando estamos ou estão passando por um período ruim porque, provavelmente, é mesmo então que o diabo intensifica a sua ação para nos desviar por caminhos distantes da vontade de Deus.

Na segunda tentação, o diabo “levou-O para a cidade santa, colocou-O no pináculo do templo e disse-Lhe: ‘«Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’». Respondeu-lhe Jesus: «Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus”.

Foi uma tentação claramente capciosa: se recusar, vai demonstrar que não confia plenamente em Deus; se aceitar, vai obriga-Lo a enviar, para seu benefício pessoal, seus anjos para salvá-Lo. O diabo não sabe que Jesus não teria necessidade de anjo nenhum.

O Senhor ouvirá, no final da sua vida terrena, uma proposta semelhante, e com palavras quase idênticas: « Se é o rei de Israel, desça agora da cruz e acreditaremos n’Ele »

Cristo recusa realizar milagres inúteis, por vaidade e vanglória. Aprendamos também a rejeitar tentações deste tipo: o desejo de fazer boa figura, que se pode manifestar até na pessoa e na atividade mais santa; não nos deixemos enganar por argumentos falsos, que pretendem basear-se nas Sagradas Escrituras; aprendamos a não pedir (e muito menos a exigir) provas ou sinais extraordinários para acreditar, pois o Senhor nos dá graças e provas suficientes para nos mostrar o caminho da fé dentro da nossa vida ordinária.

Na terceira tentação o diabo oferece a Jesus toda a glória e o poder terreno que um homem poderia desejar: «mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória e disse-Lhe: «Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares”». O Senhor expulsou definitivamente o tentador. O diabo promete sempre mais daquilo que pode dar. A felicidade está bem longe das suas mãos. Toda tentação é sempre um engano miserável. E para nos pôr a prova, o diabo aproveita as nossas ambições. O pior é querer destacar-nos a todo custo, procurar sistematicamente a nós próprios nas coisas que fazemos ou planejamos. O amor próprio pode, em muitas ocasiões, ser o pior dos ídolos.

Nem podemos prostrar-nos diante das coisas materiais, fazendo com que elas também se tornem ídolos: elas nos tornariam escravos. Os bens materiais deixam de ser bens se nos separam de Deus e dos homens, nossos irmãos.

Teremos que estar vigilantes, com uma luta constante, porque em nós resiste a tendência de desejar a glória humana, mesmo que tenhamos dito muitas vezes ao Senhor que não procuramos outra glória senão a d’Ele. O Senhor também nos dirige o seu mandamento: “Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto”. É o que desejamos e pedimos: servir a Deus na vocação para a qual Ele nos chamou.

 

Meios para ganhar

Para vencer devemos pedir ajuda ao Senhor, que está sempre ao nosso lado na batalha. Ele pode tudo: «Mas tendes coragem, Eu venci o mundo!". E, ao lado de Cristo, também nós podemos dizer: «Tudo posso naquele que me conforta».

«O Senhor é a minha luz e salvação, de quem hei de ter medo?»[2].

Nas tentações contamos com a formidável ajuda dos anjos da guarda, a quem nosso Pai Deus nos confiou, para que sempre nos protejam em todas as nossas necessidades: “Ele mandará aos seus Anjos que te guardem em todos os teus caminhos.”. Muitas vezes recorreremos a eles pedindo ajuda, especialmente nas tentações: o anjo da guarda é um grande amigo, pronto a ajudar-nos nos momentos de maior perigo e necessidade.

Estejamos vigilantes contra as tentações quando estamos empenhados na oração, que nos preserva da tibieza, e não negligenciemos a mortificação, que nos mantém alertas às coisas de Deus. Somos fortes quando fugimos das ocasiões de pecado, por pequenas que nos parecam: sabemos, de fato, que “Quem ama o perigo nele perecerá”; quando nosso dia é repleto de trabalho intenso e evitamos a ociosidade e a preguiça. Para além disso, devemos ter em conta que é mais fácil resistir à tentação quando ela se manifesta pela primeira vez, quando se insinua, em vez de permitir que adquire consistência, "porque a vitória sobre o inimigo será mais fácil se a sua entrada no coração for resolutamente bloqueada, se se mover contra ele logo que bater à sua porta. Por isso se dizia: “Enfrente a doença no início: o remédio chega tarde, quando ela ganha força com o passar do tempo”. Porém, mesmo quando “ganhou força”, pode-se, com humildade, encontrar o remédio adequado.

Combatemos eficazmente as tentações, manifestando-as com grande simplicidade na confissão e na direção espiritual: ao não as escondermos, de facto, já estamos quase a superá-las. Se recorrermos à Virgem, nossa Mãe, sairemos sempre vitoriosos, mesmo das provações em que nos sentimos mais perdidos.

 

 

 

[1] J. ESCRIVA’, È Gesù che passa, 61.

[2] Sal 26, 1.

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