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Sofreu muito nas mãos de vários médicos

7. O caminho proposto aos jovens FCIM

de pe. Luigi Polvere icms

O nosso texto continua dizendo: «... e ela sofreu muito nas mãos de muitos médicos, gastando todos os seus bens sem nenhum benefício, mas piorando...» (Mc 5,25-26). Nestes doze anos não ocorreu apenas a sua hemorragia, mas também outros personagens que marcaram a sua história: os médicos.

Notemos uma coisa: o tema do sofrimento aparece agora. Não se diz o quanto o sangramento lhe causou – e não há dúvida de que foi muito doloroso – mas ela “sofreu muito nas mãos de vários médicos” – mas só agora é que falamos da dor! Na verdade: muita dor. Esta é a sua verdadeira história de sofrimento... não aquele ligado ao sangramento, mas aquele resultante dos tratamentos. Essa mulher estava sangrando, ela tinha uma doença que não conseguia resolver, e o que ela faz? Ela procura tratamento, procura alguém que a ajude, e no final o resultado será: muito sofrimento e nenhuma melhora. A doença não a fez sofrer tanto quanto os médicos. Não foi o problema que a esvaziou, mas a solução.

Um sacerdote sábio disse: “Não tenho medo dos problemas das pessoas, tenho medo das soluções das pessoas”. A maneira como resolves os problemas costuma ser pior do que o problema em si. Os médicos da mulher talvez não sejam maus, a questão é que eles são incapazes de resolver, porque as  suas soluções são humanas e limitadas... Essa mulher passou a entender isso. E nós? Sim, porque para curar o nosso coração e chegar à verdade, devemos finalmente parar de iludir-nos, reconhecer que não é da sabedoria humana que virá o salto de qualidade. Essa mulher levou doze anos para entender isso e, nesse tempo, ela piorou e perdeu tudo o que tinha. Se quisermos curar-nos além de identificar como perdemos sangue, precisamos de refletir sobre o facto de que existem terapias erradas que deveriam ser abandonadas.

Do que estamos a falar? De todas aquelas soluções perigosas que parecem boas e sábias, mas que na verdade pioram a situação. Numa palavra: são todos os nossos ídolos com quem tentamos resolver as nossas feridas e os nossos medos... sem resolver nada. É a lista das coisas às quais pedimos a felicidade. São os nossos “médicos” que estranhamente não curam porque não conhecem o nosso coração como o Senhor Jesus. E existem três tipos de ídolos: compensações, posses e projetos.

O medo de sofrer ou de não estar à altura de alguma coisa traduz-se na procura do ídolo do prazer e isso leva-nos a pensar que a satisfação dos prazeres (sexo, gula, conforto) é a solução fácil e segura para todos os problemas (dietas, desporto e cuidados compulsivos do corpo...). O segundo tipo é o ídolo da posse... resolver o medo de não ter importância ou do futuro com a ideia de que a estima, o sucesso, o poder ou os bens que nos dão segurança e estabilidade (tempo perdido em redes sociais e compras sem fim, carro). Por fim, os ídolos ligados a projetos que te tiram da realidade por meio de ideias e te fazem perseguir um bem hipotético e esquecer o real (viagens, mil jornadas espirituais, estar envolvido em muitas iniciativas e não fazer bem nenhuma delas).

Como podes identificar se uma pessoa é escrava de um ídolo ou se o verdadeiro Deus está no centro do seu coração? Simples! Há um texto evangélico que diz: “a boca fala da plenitude do coração...” (Mt 12,34) Do que falas? O que obervas? O que procuras? Uma pessoa que persegue um ídolo vive só disso, fala só disso, vê só aquilo... e, sobretudo, se só o pensamento que aquilo não é alcançável ou é um engano fico com raiva... então isso é apenas um ídolo. Podes-te perguntar: se é falso que é errado fazer isso, por que fico com raiva? E se é verdade que estou me a enganar, por que estou com raiva? Em uma palavra: por que estou com raiva? É melhor não deitar fora essa dúvida tão rapidamente, há uma reação demasiado forte, e certamente não é profunda e verdadeira, não está de acordo com o Espírito Santo...

E qual é o preço de todas essas estratégias? A busca do prazer compromete a lucidez, ser escravo da comida compromete a saúde, ser dependente do sexo destrói a dignidade, a moda despersonaliza, os entretenimentos e os jogos tornam-no incapaz de viver a realidade e levam-nos a viver fechado em nós mesmos. A busca pelo poder e pela posse também custa muito, tornam-nos hipócritas e colocamos máscaras porque todo o poder ou toda a posse custa a liberdade, e quanto sacrifício para ser alguém... em nome de quê? A posse e o poder destroem amizades, casamentos, famílias porque é o principal adversário do amor. Através da posse perdemos a capacidade de nos doarmos. Depois, há os custos dos projectos, que nos tornam cegos face aos factos, aos outros e à realidade que já não é aceite como é, mas como procura de confirmação do próprio pensamento. E se a realidade contradiz os meus planos, é ela quem está errada. E eu, escravo das minhas expectativas, perco a paz, a sinceridade, a humildade, a capacidade de acolher, e para os meus projetos não percebo que estou a arruinar a minha vida, os meus relacionamentos, a minha capacidade de crescer e aprender a ficar onde a vida me coloca. Mas não basta ter consciência de um ídolo; livrar-se dele requer um pouco de “raiva santa”. É preciso um pouco de raiva pelos erros cometidos para reconhecer que eles nos custaram muito. Precisamos de “orgulho santo”, isto é, da percepção de que nosso coração merece muito mais do que essas misérias.

O primeiro passo para a cura é reconhecer que estes médicos enganaram-nos, admitir que as nossas estratégias não tiveram sucesso. É muito difícil porque tendemos a justificar as nossas ilusões e assim atrasar a nossa conversão. Enquanto mantiveres as tuas soluções em mente, Deus não te poderá  oferecer as Suas... não podes escapar do mal se não tiveres desgosto. O pecado nunca “morre de morte natural”, sempre e apenas de morte violenta: os ídolos devem ser quebrados e não nos abandonam se não lhes dissermos "não"... pode acontecer que te livres deles por algum tempo, mas depois voltam se não os renunciares firmemente. Deus não nos salva sem nós, Ele faz isso junto connosco... Há um facto que explica-nos isso: porque é que Deus libertou o seu povo da escravidão na terra do Egito somente depois de 430 anos de opressão? Por que Ele não os libertou antes? Porque é que só depois de 430 anos clamaram por Deus, assim nos diz o livro do Êxodo. Antes eles contetavam-se. Deus é quem nos liberta, mas para chegar lá Ele precisa de uma pista de aterrajem, e essa pista é o nosso clamor. Se confiares nos “teus médicos” nunca resolverás as tuas doenças. E assim chegamos ao fim do diagnóstico, o mais amargo; com este desejo de cura, podemos finalmente seguir em frente.

 

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